domingo, 28 de fevereiro de 2010

Cristianismo de marionetes: Bonecos sem vida nas mãos de líderes corruptos

Por Leonardo Gonçalves

Estamos vivendo na época dos crentes marionetes. Em um país onde apenas uma parcela ínfima da sociedade adquiriu o gosto pela leitura, era de se esperar que uma religião que demanda fidelidade a um livro – ainda que seja um livro sagrado – encontraria problemas para se desenvolver de forma saudável. É claro que eu conheço as estatísticas recentes que mostram o crescimento vertiginoso dos evangélicos, mas essas pesquisas também nos revelam que a maior parte desse crescimento se dá na ala neopentecostal, em meio a igrejas que exploram ao máximo a fé mística, ubandista, idólatra e xamânica do povo brasileiro – sincretizando essas religiões e condensando-as em uma forma de culto muito diferente do culto racional de Romanos 12, e que por pura teimosia insiste em serem chamadas “igrejas evangélicas”. É claro que essas crenças não passam pelo crivo bíblico, de modo que para sustentá-las não basta apenas distorcionar as palavras da Bíblia: é preciso literalmente abandoná-la para levar à cabo essa religião idólatra, utilitarista e manipuladora.
Devido à multiplicação dos chamados “movimentos contraditórios” (um eufemismo para seitas), a Bíblia tem sido conservada apenas como acessório, um adorno para o púlpito, mas a bem da verdade, uma peça sem serventia. Cada vez menos se recorre a ela para basear opiniões, de forma que até o conhecido bispo-empresário chegou ao ponto de lançar uma campanha televisiva em favor do aborto, causando gande confusão no meio evangélico. Se por um lado o telebispo foi mais longe que todos os demais, por outro lado precisamos reconhecer que ele não está só: ele fez escola. Muitos telepastores e telepregadores tem seguido os seus passos. Essa semana estava lendo acerca de um telepastor (aquele que faz chapinha, sabe?) que formou uma caravana e se dirigiu para Israel, a fim de queimar os pedidos de oração que os “fãs” enviam para o seu programa. Outro pregador, que já foi um verdadeiro militante apologista, e que batia de frente com os modismos, heresias e falácias neopentecostais, mudou de trincheira e agora defende com unhas e dentes a teologia da prosperidade, preferindo a mensagem de “Vitória em Cristo” do que aquela da “Salvação por Cristo”.
Quero deixar claro que jamais afirmei ser o dono absoluto da verdade, antes anuncio que a Bíblia é verdadeira e me oponho veementemente a esse cristianismo analfabeto. Ora, o cristianismo sem Bíblia é como um casamento sem conjuge! É nela que encontramos a ética do reino, as promessas de Deus e suas demandas, as palavras inspiradoras de Cristo nos evangelhos, a doutrina cristã sistematizada por Paulo e a mensagem apologética de Pedro e Judas. Ela é o maior documento que o cristianismo possui. Ignorar a Bíblia é ignorar os atos de Deus na história da salvação, e conseqüentemente a nossa própria história. Mas infelizmente o que vejo hoje é um cristianismo sem Bíblia, sem Cristo, sem dogma e sem mensagem salvadora. Um cristianismo consumista, capitalista, utilitário, espíritista, relativista e pragmático. Os seguidores desse cristianismo caricato são marionetes nas mãos dos lobos devoradores, sendo constantemente manipulados para o benefício dos líderes que enchem os bolsos com o dinheiro dos “fiéis”, comprando aviões de 30 milhões de dólares, construindo mansões em Campos do Jordão, ou investindo em cavalos árabes “puro sangue”. Enquanto isso, os crentes se prestam aos mais absurdos papéis: banhando-se com sabonete de arruda, participando de sessões de descarrego, fazendo despachos, comprando produtos “made in Israel” e movimentando esse marcado milionário que é a industria da iconolatria evangélica.
É assim que cresce a igreja evangélica brasileira: enferma. Ela é uma igreja obesa, com o colesterol alto e diabetes. É uma comunidade doente, mas não é a única culpada da sua saúde precária. Falharam os seus pastores em administrar-lhe uma dieta saudável, e ainda falham ao dar-lhe veneno em lugar de remédio. É verdade que a igreja evangélica está crescendo, porém esse não é um crescimento saudável.
Quando era criança, me apaixonei por marionetes. Lembro-me que no jardim de infância meus olhos brilhavam durante as apresentações do grupos de títeres. Porém, o tempo foi passando e um dia eu descobri que a voz que eu ouvia não era a voz do boneco: havia alguém escondido atrás da cortina movendo os pobres personagens sem vida. Desse dia em diante, perdi totalmente o interesse por marionetes. Os membros dessas novas igrejas são meros títeres, massa de manobra na mão dos perversos, dominadores e exploradores da fé alheia. São os lobos vorazes que manipulam os bonecos inertes a fim de satisfazer suas necessidades e seus sórdidos interesses. Nossos membros são marionetes: a voz que ouço em suas defesas “apologéticas”, definitivamente não é deles. Já ouvi essa voz antes e aprendi a reconhecer o som por detrás do boneco de madeira. Eles não podem me enganar, pois aprendi cedo, aos 5 anos de idade, a discernir a voz que comanda o sistema.
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Fonte: Púlpito Cristão. Escrito em Outubro de 2008

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Carta as 7 Mil Igrejas


Bem-aventurado aquele que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia, e guardam as coisas que nela estão escritas; porque o tempo está próximo”. Apc. 1.3 

           JOÃO... Ás  igrejas evangélicas brasileiras “...Graça e paz seja convosco da parte daquele que é, e que era e que há de vir, e da dos sete espíritos que estão diante do trono;”

Carta à Igreja - Empresa
Tenho contra ti que deixaste a tua primeira caridade – e que ao invés de cuidar de tuas viúvas e de teus irmãozinhos carentes e idosos, te preocupas mais com a “ampliação e decoração de tuas paredes”. E tu ó “anjo-empresário” que ao invés de cuidar integralmente de tuas ovelhas, estais preocupado mais com a arrecadação e com a imagem do teu movimento na cidade! “...brevemente a ti virei...”

Carta à Igreja – Anônima
Eu sei as tuas obras...que enfatizas as obras de misericórdia namesma proporção que as obras de piedade. Que apesar de não ser tão badalada, iluminas a população dessa cidade. E tu ó anjo consciente, que cumpre cabalmente o teu ministério, não te deixes levar pelos modismos dos que dizem que são pastores/as  e  não são.

Carta à Igreja – Clube
Eu sei as tuas obras...Buscai satisfazer vosso ego e tens gastado teu tempo mais com diversão que missão. E tu ó anjo de Balaque, é mais proveitosa a fala de uma “mula”, que tuas prédicas humorísticas!

Carta à Igreja – Shopping Center
Tenho contra ti que toleras Jezabel – com todos as tendências do mercado religioso; consumismo, teologia da prosperidade, fetiches e idolatria para construção de vossa torre de babel! E tu ó anjo de conveniência, teu vaso será quebrado com vara de ferro!

Carta à Igreja – Infância Eterna
Tenho contra ti que nunca cresces, sempre estudando, seminários e simpósios, congressos e Conclaves. Tens nome e CNPJ , mas, falta-te vida! Falas em avivamento, mas estais morta. E tu ó anjo- ingênuo, que só passa alimento não sólido às tuas ovelhas e as entrega aos cuidados dos “gurus” do crescimento, preparas tu mesmo, o teu alimento. Se não sereis deletados! 

Carta à Igreja – Amiga de Deus
Eu sei as tuas obras...firme diante das portas dos infernos atuais. Teu avivamento é a tua prática paciente do amor. És poderosa porque visitas os guetos e valados cumprindo a Grande Comissão.

Carta  à Igreja de Janes e Jambres
Eu sei as tuas obras...Tens aparência de piedade mas nega a eficácia dela. És apática, ficas sempre em cima do muro. Acha-se cheia dos dons, mas és pobre e miserável. E tu ó anjo-oportunista, tua ética é intragável, queres ser tudo mas não consegues ser nada; por isso, vomitar-te – ei !                                                                          

Rev.Loiola , com tremor e temor!


A Escolha entre o Clube e o Caminho

Há dois modelos básicos de igreja. Há os chamados para fora... e os chamados para dentro.

Igreja, de acordo com Jesus, é comunhão de dois ou três... em Seu Nome... e em qualquer lugar...
E mais: podem ser quaisquer dois ou três... e não apenas um certo tipo de dois ou três... conforme os manequins da religião.
Igreja, de acordo com Jesus, é algo que acontece como encontro com Deus, com o próximo e com a vida... no 'caminho' do Caminho.
Prova disso é que o tema igreja aparece no Evangelho quando Jesus e Seus discípulos estavam no 'caminho' para Cesareia de Filipe: um lugar 'pagão' naqueles dias.
Assim, tem-se o tema igreja tratado no 'caminho' e em direção à 'paganidade' do mundo.
Para Jesus o lugar onde melhor e mais propriamente se deve buscar o discípulo é nas portas do inferno, no meio do mundo!
Não posso conceber, lendo o Evangelho, que Jesus sonhasse com aquilo que depois nós chamamos de 'igreja'.
Digo isto porque tanto não vejo Jesus tentando criar uma comunidade fixa e fechada, como também não percebo em Seu espírito qualquer interesse nesse tipo de reclusão comunitária.
No Evangelho o que existe em supremacia é a Palavra, que tanto estava encarnada em Jesus como era o centro de Sua ação.
No Evangelho nenhuma igreja teria espaço, posto que não acompanharia o ritmo do reino e de seu caminhar hebreu e dinâmico.
Jesus escolhe doze para ensinar... não para que eles fiquem juntos. Ao contrário, a ordem final é para ir...
Enfim... são treinado a espalhar sementes, a salgar, a levar amor, a caminhar em bondade, e a sobreviver com dignidade no caminho, com todos os seus perigos e possibilidade (Lc 10).
No caminho há de tudo. Jesus é o Caminho em movimento nos caminhos da existência. E Seus discípulos são acompanhantes sem hierarquia entre eles.
No mais... as multidões..., às quais Jesus organiza apenas uma vez, e isto a fim de multiplicar pães.
De resto... elas vem e vão... ficam ou não... voltam ou nunca mais aparecem... gostam ou se escandalizam... maravilham-se ou acham duro o discurso...
Mas Jesus nada faz para mudar isto. Ele apenas segue e ensina a Palavra, enquanto cura os que encontra.
Ao contrário..., vemos Jesus dificultando as coisas muitas vezes, outras mandando o cara para casa, outras dizendo que era preciso deixar tudo, outras convidando a quem não quer ir...; ou mesmo perguntando: Vocês querem ir embora?
Não! Jesus não pretendia que Seus discípulos fossem mais irmãos uns dos outros do que de todos os homens.
Não! Jesus não esperava que o sal da terra se confinasse a quatro dignas e geladas paredes de maldade.
Não! Jesus não deseja tirar ninguém do mundo, da vida, da sociedade, da terra... mas apenas deseja que sejamos livres do mal.
Não! Jesus não disse "Eu sou o Clube, a Doutrina e a Igreja; e ninguém vem ao Pai se não por mim".
Assim, na igreja dos chamados para fora, caminha-se e encontra-se com o irmão de fé e também com o próximo que não tem fé... e todos se trata com amor e simplicidade.
Em Jesus não há qualquer tentativa de criar um ambiente protegido e de reclusão; e nem tampouco a intenção de criar uma democracia espiritual, na qual a média dos pensamentos seja a lei relacional.
Em Jesus o discípulo é apenas um homem que ganhou o entendimento do Reino e vive como seu cidadão, não numa 'comunidade paralela', mas no mundo real.
Na igreja de Jesus cada um diz se é ou não é...; e ninguém tem o poder de dizer diferente... Afinal, por que a parábola do Joio e do Trigo não teria valor na 'igreja'?
Na igreja de Jesus... pode-se ir e vir... entrar e sair... e sempre encontrar pastagem.
O outro modo de ser igreja é, todavia, aquele que prevaleceu na história. Nele as pessoas são chamadas para dentro, para deixar o mundo, para só considerarem 'irmãos' os membros do 'clube santo', e a não buscarem relacionamentos fora de tal ambiente.
A comunidade de Jerusalém tentou viver assim e adoeceu!
Claro!
Quem fica sadio vivendo num mundo tão uniforme e clonado?
Quem fica sadio não conhecendo a variedade da condição humana?
Quem fica sadio se apenas existe numa pequena câmara de repetições humanas viciadas?
Sim, quem pode preservar um mínimo de identidade vivendo em tais circunstâncias? Nesse sapatinho de japonesa?
É obvio que os discípulos precisam se reunir..., e juntos devem ter prazer em aprender a Palavra e crescer em fé e ajuda mutua.
Todavia, tal ajuntamento é apenas uma estação do caminho, não o seu projeto; é um oásis, não o objetivo da jornada; é um tempo, não é o tempo todo; é uma ajuda, não é a vida.
De minha parte quero apenas ver os discípulos de Jesus crescendo em entendimento e vida com Deus, em amizade e respeito uns para com os outros, em saúde relacional na vida, e com liberdade de escolha, conforme a consciência de cada um.
O 'ajuntamento' que chamamos igreja deve ser apenas esse encontro, essa estação, esse lugar de bom animo e adoração.
O ideal é que tais encontros gerem amizade clara e livre, e que pela amizade as pessoas se ajudem; mas não apenas em razão de um certo espírito maçônico-comunitário, conforme se vê... ou porque se deu alguma contribuição financeira no lugar.
A verdadeira igreja não tem sócios... Tem apenas gente boa de Deus... e que se reúne e ajuda a manter a tudo aquilo que promove a Palavra na Terra.
Tenho pavor de comunidades!
Elas são ameninantes para a alma, geram vilas de doenças, produzem inibição dos processos de individuação, e tornam os homens eternos imaturos... sempre com medo do mundo e da vida.
Sem falar que em todo mundo muito pequeno, como o da 'comunidade', as doenças tendem a aumentar... e a ganhar caras e contornos de perversidade travestida de piedade...
É o que eu chamo de peidade! Fica todo mundo querendo se meter onde não foi chamado... É um inferno!
Lá no "Caminho da Graça" estou tentando levar as pessoas a esse entendimento e a essa maturidade, e não tenho nenhuma outra vontade interior de fazer daquilo mais uma 'igreja'.
Quero ver pessoas que sejam 'gente boa de Deus'; gente descomplicada e desviciada de 'igreja'; gente que aprenda o bem do Evangelho primeiro para si e em si mesmas..., e apenas depois para fora...
Portanto, não se trata de um movimento 'sacerdotal', intimista e fechado; mas sim de um andar profético, aberto e continuo...
Lá não se busca a média da compreensão... Ao contrário, lá se força a compreensão...
Lá só fica quem realmente quer... e não tento jamais dissuadir ninguém ao contrario de sua vontade.
Não há complicação. Tudo é muito simples. E quem não achar que serve, está sempre livre a achar o que lhe agrada em qualquer lugar.
Ou não foi assim que Jesus tratou a tudo no caminho?
A escolha que se tem que fazer é essa: ou se quer uma 'comunidade' que existe em função de si mesma, e para dentro; ou se tem um 'caminho de discípulos', e que se encontram, mas que não fazem do encontro a razão de ser da vida.
A meu ver, no dia em que prevalecer o modelo do 'caminho', conforme Jesus no Evangelho, a vida vai arrebentar em flores e frutos entre nós e no mundo à nossa volta; e as pessoas serão sempre muito mais humanas, descomplicadas e sadias...
Mas se continuar a prevalecer o modelo 'comunitário de Jerusalém'... que de Jerusalém tem apenas o intimismo e o espírito sectário... não se terá jamais nada além do que se teve nesses últimos dois mil anos; ou seja: esse lugar de doentes presunçosos a que chamamos de 'igreja'.
Para isto... para esta coisa... não tenho mais nenhuma energia para doar. Mas para a vida como caminho, ofereço meu coração mais jovem do que nunca.

Caio Fábio de Araújo Filho

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A igreja Subversiva e Clandestina Continua Crescendo

Todos os dias, recebo noticias e testemunhos de cristãos que estão se reunindo, se encontrando fora dos chamados guetos evangélicos, católicos, ou fora do sistema religioso institucionalizado.
Há uma igreja clandestina crescendo. Nas estatísticas oficiais, eles são designados de "os sem igreja".
Cristãos se encontrando informalmente para estudar e reler o Evangelho de Jesus. Cristãos se reunindo para orar. Cristãos se encontrando para desenvolverem projetos sociais. Cristãos que se cansaram de defender as cores de suas denominações ou grupos religiosos, muitos, às vezes, sectários, radicais, inflexíveis. Cristãos feridos pelo sistema religioso que estão encontrando cura no serviço cristão. Cristãos se voluntariando em hospitais, asilos, creches, cadeias, favelas e em ONGS sérias que visam o bem da humanidade em todos os seus aspectos e necessidades. Cristãos encontrando comunhão saudável em lugares os mais diversos. Cristãos se envolvendo em causas justas, não importando quem as iniciou, isto é, de quem foi a idéia. Cristãos cobeligerando em nome da paz, da justiça, do bem comum. Cristãos sendo apenas cristãos e não religiosos.
Sabe-se que em países ainda repressivos, esta igreja clandestina, subversiva cresce. Cresce nos porões e misturada no meio do povo e em ações comunitárias absolutamente relevantes. É impossível enumerar os cristãos que dizem estarem melhor fora dos seus guetos religiosos.
Confesso que noutros tempos isso me angustiava. Mas hoje, hoje não. Por conta do que se tornou o chamado "mercado
religioso", hoje, confesso, prefiro ver o engajamento de muitos cristãos em movimentos comuns, de rua, de cortiços, das favelas, de sem terra e sem tetos. Movimentos em favor da ética. Movimentos em favor da ecologia pensando no aquecimento global e no bem estar do mundo. Gosto de saber que há meninos e meninas se encontrando em lugares públicos para ler o Evangelho, orar e desenvolver amizades espirituais.
Gosto desta clandestinidade. Gosto desta subversidade. Gosto do sal diluído no meio da multidão. Gosto da luz em lugares que antes eram só trevas.
Hoje, quando ouço os reclamos do interminável contingente de pessoas, queixando-se dos males que estão sofrendo em seus sistemas religiosos, em seus guetos evangélicos, em seus modelos de espiritualidades, confesso, não consigo mais encorajá-los a ficar ali.
Encorajo-os a encontrarem outros irmãos e se reunirem em algum lugar e ali celebrarem a fé, a amizade, o amor, a solidariedade, ler o Evangelho e buscar interpretá-lo e traduzi-lo pra vida.
Não consigo, e nem quero mais participar de rodas em que o tema é os que estão explorando a boa fé de muitos. Cansei disto. Não tenho animo para insistir em denunciá-los. Até porque, a imprensa já o faz diariamente, tal o tamanho deste quadro que chega ser trágico. O ministério publico tem feito. Na verdade, a maioria das situações denunciadas são casos de policia e muitos estão sendo investigados, processados e presos. Acho que este é o caminho melhor, isto é, denunciá-los à justiça e deixar que esta os enquadre conforme as conclusões judiciais.
Penso que aos cristãos cabe apenas serem cristãos.
Quem disse que era pra ser assim? Qual a instituição religiosa que Jesus organizou?
Segundo o que entendo no Evangelho, não há mais lugar santo, nem dia santo, nem púlpito santo, nem encontros santos. Não há mais o clero que intermediava entre o homem e Deus. O véu do templo se rasgou e não apenas nós podemos chegar lá, mas a Glória do Eterno vazou para nós.
Creio nesta igreja clandestina, subversiva, invisível, diluída no meio das pessoas. Creio nestes encontros simples. Creio nestas reuniões extra-oficiais. Hoje, não há porque ficar aprisionado a um sistema religioso que sobrecarrega seus adeptos com cargas insuportáveis de dogmas, maldições, chantagens, coação, pressões psicológicas, que espalham o medo, o terror.
Minha palavra aos que reclamam disto, é: porque você continua lá? O que te prende? Deus não é. E se Deus não é, quem é? Ou é o poder de persuasão de homens e mulheres que exercem tal domínio sobre muitos ou é de outra origem que nem quero aqui citar.
Quero fazer parte desta igreja que cresce na clandestinidade, na subversidade, no anonimato, no meio do povo. Quero fazer parte desta igreja que se espalha, se dilui, e, como água, penetra os lugares impenetráveis. Quero essa igreja, que não tem sede e nem utensílios caros e muito menos um clero ditando o que deve ou não ser feito.
A resposta aos exploradores de almas e de bolsos será dada quando os cristãos deixarem de alimentá-los, sustentá-los, enriquecê-los, paparicá-los, louvá-los, exaltá-los, ovacioná-los.
Parem de contribuir para seus projetos megalomaníacos de construir suas torres. Contribua com aqueles que, se você, seus filhos, seus pais e amigos estiverem num hospital, eles irão visitá-los. Contribua com os que visitam os presos em cadeias. Contribua com os que estão militando entre os necessitados e você sabe seus nomes, conhece suas famílias. Sabe onde moram. Pare de contribuir com os que estão construindo mansões. Pare de contribuir com os que vivem voando pelos ares em seus jatos particulares. Parem de contribuir com aqueles que têm motoristas particulares e carros importados pagos a preço de ouro e com as ofertas de gente simples. Pare de contribuir com aqueles que só usam roupas de marca. Contribua com os que estão aconselhando seus filhos pessoalmente. Conhece-os pelos nomes. Contribua com aqueles que você pode ligar de madrugada e eles os atendem. Contribua com aqueles que você sabe o numero do celular e quando você liga, eles atendem. Contribua com aqueles que lhes respondem os e-mails. Contribua com aqueles que te atendem em horas de desespero. Contribua com aqueles que foram nos funerais de seus familiares e choraram com você e sua família. Contribua com homens e mulheres que você já chegou perto e viu, testemunhou que são seres humanos normais. Não contribua com semi-deuses. Contribua com aqueles que você pode tratar pelo primeiro nome.
Tenho pra mim que esta é a melhor forma de denunciar e destronar estes que vivem da miséria de tantos. Se você faz parte de um pequeno grupo, uma pequena comunidade onde você é tratado com dignidade, pelo nome e o que ali é ensinado e feito, todos sabem e nada esta debaixo dos tapetes, fique ai e contribua com seus recursos. Não contribua pra manter programas de radio e televisão de ninguém, a não ser que você tenha absoluta certeza que seus recursos de fato estão sendo investidos de maneira correta. Contribua com aqueles a quem você tem acesso. Contribua com os que te ouvem. Contribua com os que te atendem. Contribua com gente que tem ouvidos e sensibilidade para com você e os seus próximos.
É por isto que creio nesta igreja clandestina, subversiva, pois, ela pode não ser conhecida da mídia, mas, é conhecida nas ruas, nas favelas, nos guetos, nos hospitais, nos asilos, nas creches, nas escolas, nas cadeias, nas unidades da FEBEM, e em tantos outros lugares.
Oro pra que esta igreja cresça. Oro pra que milhares de pequenos grupos sejam constituídos. Oro para que os movimentos, como o Caminho da Graça e outros, nunca se institucionalizem a ponto de se tornarem tão pesados que não consigam mais atender as pessoas. Oro, oro mesmo, pra que Jesus seja visto e conhecido em lugares simples, em encontros simples, no meio de gente simples e ali, Ele cure, restaure, reconcilie, reconstrua, salve, ressuscite, enfim, que Ele faça aquilo que só Ele pode fazer.

Creio nesta igreja. Com carinho.
Carlos Bregantim

Modelo de Igreja

Mais do que nunca precisamos de uma reforma relacional, cujo conteúdo prático seja o vínculo, o afeto, a intimidade, a construção de amizades espirituais. Um caminho de crescimento que passe pela solidariedade, pela paciência, pela hospitalidade, pelo perdão, pela reconciliação, para que sejamos conhecidos como discípulos de Cristo pela qualidade dos vínculos que temos entre nós. A verdadeira vida cristã está relacionada à qualidade dos nossos vínculos e afetos.
Eu creio que o essencial é viver na intimidade com o Pai, sob a inspiração do Espírito Santo, buscando a santidade de Cristo, amando-nos uns aos outros e, juntos, pregando a Palavra e servindo aos pobres. Sem nunca alcançar plenamente e recomeçando outra vez, outra vez mais, quantas forem necessárias, neste caminho sem volta do aprendizado do amor baseado na graça. Isto resume para mim a caminhada cristã.”
“Existe a igreja dos ricos e famosos ...e tem uma outra igreja anônima, pobre, na periferia, que se encontra principalmente em pequenos ajuntamentos, no movimento de missões e nas iniciativas cristãs de cunho social. A igreja do centro adotou um modelo de mercado, de culto bem produzido...a igreja da periferia é sacrificial, profética, anônima e está envolvida com a realidade humana que sofre. Eu fiz uma opção pela igreja da periferia, do simples, do pequeno, sem fama, sem marketing, sem profissionais da fé, sem personalismo. Estou convencido de que fama, poder, riqueza e uma igreja voltada para si mesma não refletem o projeto de Jesus de Nazaré e dificilmente geram santos, profetas e reformadores.”

Texto compilado de Osmar Ludovico